Eu estava lendo o livro Isso é Arte? do Will Gompertz, no capítulo sobre Primitivismo, quando me deparei com o tal do Henri Rousseau. O autor descreve sua trajetória artística um tanto quanto peculiar: Henri veio de uma família muito pobre, trabalhou até os 40 anos como coletor de impostos e então decidiu abandonar seu emprego e tornar-se um artista autodidata. Ele com certeza não se encaixava no perfil de artista boêmio da época, ele era só um cara de meia-idade sem dinheiro com uma vida sossegada e paixão pela pintura. Eu nunca tinha ouvido falar dele, na verdade, mas quando eu vi Uma noite de Carnaval, seu primeiro trabalho exposto, me apaixonei instantaneamente.
O quadro retrata um casal fantasiado voltando à noite de uma festa de carnaval. E é ingenuamente lindo. Eu adoro o jeito como o casal está centralizado, o céu azul de começo da noite, os tufinhos de nuvem, e até mesmo a assinatura inocente dele no canto do quadro.
Quando Rosseau o expôs no salão de Paris, porém, foi impiedosamente ridicularizado, como iria ser com a maioria dos seus quadros até o fim da sua vida. Eles zombavam da completa falta de habilidade técnica dele, da ausência de perspectiva, das composições desajeitadas e da aparência plana que suas pinturas tinham. E é exatamente isso que torna sua obra tão especial. Como Gompertz coloca no livro: "Um híbrido do tipo de ilustração simplista que vemos num livro de figuras para crianças com a limpidez pictórica bidimensional de uma estampa japonesa". Não podia ser uma combinação melhor.
A ingenuidade dos seus quadros e a inocência do próprio Rosseau tornaram-se sua marca. Apesar das críticas e da humilhação, ele continuava acreditando que deveria seguir a carreira de pintor, ainda que tardia. Ele ia ao Louvre e estudava as pinturas dos seus artistas favoritos, e nas revistas e livros sobre florestas selvagens ele encontrou inspiração para uma série de vários quadros que passam-se nesse cenário "exótico".
Novamente, suas pinturas revelavam um fascínio ingênuo de alguém que nunca vira uma floresta ao vivo mas sonhava e fantasiava em um dia visitá-la. Observando os quadros fica claro que ele desconhecia completamente o tema dessas pinturas - muitos animais são mais amigáveis do que ameaçadores, e muitas das espécies que ele agrupava em um quadro nunca viveram juntas. São quase surrealistas, mas para mim eles são pintados com tanto carinho e cuidado que são quase plausíveis.
Ele só obteve reconhecimento quando Picasso deparou-se com sua obra e ficou deslumbrado, chegando a dizer que a inocência de Rousseau lhe dava acesso ao que verdadeiramente significa ser humano, uma revelação que ele diz ser inacessível à maioria dos artistas. O Picasso é meio esquisito. Graças à ele, Rousseau foi acolhido a um grupo de artistas jovens da vanguarda. Era um tanto quanto engraçado aquele senhor então com seus já 60 e poucos anos que nunca tivera uma aula de pintura na vida, no meio de todos aqueles artistas boêmios jovens e pretensiosos. Mas todos o admiravam com muito carinho, e ele até chegou a ter um banquete em sua homenagem, na casa do próprio Picasso.
Apesar dos críticos da época olharem para suas pinturas e falarem que "uma criança consegue fazer isso", eles não mencionam (ou não sabem) que é bem difícil pintar com a liberdade de uma criança. Talvez eu esteja romantizando-o demais (como eu faço com tudo), mas eu acredito que suas pinturas compõem uma maravilhosa e despretensiosa história ilustrada e que Rosseau, como uma criança que não ouve os adultos, não ouviu os críticos e persistiu com aquilo que realmente gostava de fazer. E ainda bem que ele fez isso!
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