Esse ano foi estranho. Também foi o ano mais longo de todos. O fato de que 2014 está finalmente acabando me dá uma sensação de alívio esquisita e também faz eu sentir que terminei um rito de passagem que durou o ano inteiro e agora eu finalmente posso me considerar parte dos Adultos. Os Adultos por definição são aquelas pessoas que não vão mais pra escola e também não convivem mais com os pais e conseguem fazer compras no supermercado sem se distraírem na parte dos salgadinhos e esquecerem das coisas realmente importantes tipo papel higiênico e não choram à noite quando percebem que às vezes a vida não faz nenhum sentido. Ok, na verdade, acho que não sou bem uma adulta ainda afinal, mas eu sinto que tenho vagado entre a zona cinza que é a adolescência e a vida adulta o ano inteiro.
Terminar o colegial foi ótimo, e me dar ao luxo de me livrar da rotina exaustiva que é estudar para os vestibulares foi melhor ainda. Quando eu passei na faculdade, senti que havia conseguido completar a tarefa mais foda da minha vida, um sentimento que durante todo o meu colegial foi reforçado pela pressão constante para marcar pontos em uma prova e pela ideia de que meu valor enquanto ser humano contava com isso. Depois disso, eu tive certeza de que minha vida agora estava seguindo uma ordem perfeita e que, pela ordem, agora era o momento em que eu saía da casa dos meus pais e me tornava adulta com uma sensação de propósito e liberdade. Falando de uma forma mais metafórica, eu iria pegar uma escada rolante e suavemente subir até a tal da
adulthood.
Ainda falando metaforicamente, foi mais como se eu tivesse entrado em um elevador e eu nunca sei quando esse elevador está subindo ou descendo e quando eu estou no andar certo e eu nem sei o quão seguro é esse elevador. E eu estou presa nesse elevador que é um limbo esquisito entre o que sobra da minha adolescência e a minha ideia de fase adulta que eu romantizei mais do que deveria (as usual).
Eu me senti mais perdida do que nunca esse ano. Eu cometi uns erros grotescos, acertei sem querer algumas vezes, e deixei de fazer muita coisa que meu eu "adulto" deveria ter feito por medo. Mas o que mais me marcou esse ano foi aquela sensação estranha de "E agora? O que eu faço agora?", apesar de eu estar cursando algo em uma faculdade eu não sentia mais que eu tinha um propósito na minha vida tanto quanto eu tinha em relação a passar no vestibular quando estava no colegial. Ficou um vazio muito grande dentro de mim, que deu espaço a uma crise existencial não muito agradável. Durante muitas vezes eu me senti só vagando por aí e fazendo coisas que eu nunca tinha certeza absoluta de que eu devia, ou queria, estar fazendo. Durante muitas vezes eu senti um impulso enorme de largar tudo e voltar pra casa e ficar com a minha mãe e deitar na minha cama e ficar lá pra sempre. E apesar de eu ter conhecido bastante gente na nova cidade, eu ainda me senti,
me sinto, solitária na maior parte do tempo, presa nesse limbo cheia de questões existenciais.
tl;dr: Eu meio que me sinto como as personagens de Ghost World.
Em Ghost World, Enid e Rebecca, as duas personagens principais, também acabaram de terminar o colegial e passam a maior parte do tempo andando pela cidade, indo aos mesmos lugares e fazendo comentários sarcásticos sobre as pessoas que encontram. Elas meio que evitam falar sobre faculdades ou sobre o futuro da amizade delas, e preferem continuar fazendo as coisas que elas sempre fizeram e que costumavam ser divertidas para elas, tentando ignorar o fato de que a cidade e as pessoas em torno delas estão mudando, assim como a amizade delas começa a se deteriorar. Enid, em especial, tem que lidar com o fato de que aquela sua visão de mundo meio
everything sucks é bem restrita e superficial, e que a sua melhor amiga é diferente dela em vários aspectos.
Para mim, essa história é sobretudo sobre deixar as coisas irem, sobre abandonar certas coisas, e aceitar mudanças, e aceitar que as coisas mudem você. Como a Enid, é difícil para mim abandonar a minha visão restrita e superficial de mundo, especialmente porque ela tem tanta relação com a minha adolescência, ou mesmo com a infância. As coisas pequenas que ela faz ao longo do livro, tipo pintar o cabelo de verde e se vestir punk, ou ouvir um disco que ela ouvia quando era criança, representam bem essa sensação de tentar se agarrar ao que um dia foi estável.
Frances Ha também é um filme que traduz bem toda essa situação. Tipo quando a Frances tenta pagar a conta de um restaurante e não aceitam o cartão dela e ela diz aquela frase que eu sei que vai definir a minha vida por um bom tempo:
Frances tem de lidar com o fato de que a sua melhor amiga está tocando a sua vida sem ela, e começar a encarar coisas bastante adultas tipo procurar um apartamento, e pagar o aluguel do apartamento, e arranjar um emprego para pagar o aluguel do apartamento. Frances pula de lugar em lugar, conhecendo pessoas novas mas sempre sentindo falta de sua amiga, e solitária, e confusa. E é como se ela sempre estivesse no timing errado com o resto do mundo. Mas o que eu achei legal e me identifiquei é que apesar de tudo ela tem esses momentos de otimismo ou só de entusiasmo sem motivo aparente, tipo quando ela está correndo na rua enquanto toca David Bowie.
E também, as cenas dela fazendo compras no supermercado, ou lendo no transporte público, e
quando ela vai visitar os pais dela na cidade natal, que é uma cena tão calma e reconfortante pra ela em comparação com a bagunça que é Nova York.
No final, ela ainda não tem a vida inteira feita. Talvez ela nem tenha conseguido encontrar completamente uma resposta pra pergunta do "o que eu faço agora?". Talvez não tenha bem uma resposta. Talvez eu devesse parar de ver a vida como um prédio de x andares onde a gente percorre sempre progressivamente em direção ao último andar, usando elevadores ou escadas rolantes ou qualquer outra metáfora com meios de transporte. Acho que afinal não tem problema ficar no limbo por um tempo. A Frances aprendeu algumas coisas e conquistou algumas outras coisas, e acho que é isso que eu também espero para mim no próximo ano.
xxx